O-privado-e-o-público/O-pessoal-e-o-político
O mais famoso assassínio em relações de intimidade na tradição literária ocidental é porventura o uxoricídio cometido pelo herói Otelo na tragédia homónima de Shakespeare. A estrutura da peça, como que a bem marcar a eterna violência do familiar, do pessoal e do doméstico, de que as mulheres têm sempre sido, e continuam a ser, as maiores vítimas, sublinha eloquentemente este assassínio através de um outro uxoricídio, cometido pelo vilão Iago. Ambos os crimes se explicam pela ansiedade masculina de reposição de uma ordem que as mulheres violam ao saírem (ou parecerem sair) do lugar de submissão e obediência que a sociedade bíblica patriarcal lhes destina.
“A cabeça de uma mulher é o homem”, diz Paulo em 1 Coríntios 11: 3-10. E em 1 Timóteo 2:12 é ainda mais claro: “Não admito à mulher que ensine, nem que exerça domínio sobre o homem; mas sim que se mantenha em silêncio”. A sentença de Paulo decorre, evidentemente, das leis veterotestamentárias. A um homem acometido do “espírito do ciúme” e “ciumento de sua mulher”, “seja ou não verdade que ela tenha prevaricado”, bastaria cumprir as leis da “oblação do ciúme” para “ficar isento de culpa”, ao passo que “a mulher [carregaria] a pena da sua iniquidade” (Números 5:11.31).
A lealdade pateticamente cega de Desdémona ao marido torna pungentemente absurda a sua morte, mas a peça não deixa esquecer (nem Iago deixa Otelo esquecer) que a jovem tinha desrespeitado a autoridade do pai ao secretamente se unir a Otelo (3.3.208); por sua vez, ao denunciar as teias patriarcais que reduzem as mulheres a estereótipos para sua própria confirmação, e ao desmascarar corajosamente as velhacas maquinações do marido, Emília surge no final da peça como uma verdadeira heroína trágica. Que, por isso mesmo, tem também de ser silenciada.
A história passa-se no século XVI, quando Veneza domina a ilha de Chipre cobiçada pelos turcos, e é aparentemente muito simples: uma paixão impossível à partida por desequilíbrios considerados insuperáveis. Desdémona, uma muito jovem e inexperiente veneziana, apaixona-se perdidamente por um homem muito mais velho, Otelo, um mouro cristão de alta linhagem africana e um destemido soldado, muito respeitado e celebrado pelas derrotas que foi infligindo aos muçulmanos na defesa dos interesses de Veneza.
Iago, o porta-estandarte de Otelo e seu dedicado companheiro de muitas e violentas guerras, sente-se defraudado e humilhado quando o seu idolatrado general nomeia o bem menos militarmente experiente Cássio para o posto de lugar-tenente, por ele ambicionado. Na sua vingança, Iago vangloria-se de ser, e com inteira razão, o mais inteligentemente perverso e demoníaco de todos os vilões shakespearianos. O silêncio que no final Iago se impõe é o derradeiro gesto de vingança de um homem publicamente atingido na sua dignidade de classe e sexo, ao ter sido preterido pelo seu superior hierárquico e desmascarado pela sua própria mulher.
A crítica em geral tem entendido Otelo como a tragédia do ciúme, esse irracional “monstro de olhos verdes” (3.3.168) que tudo arrasa à sua passagem. De facto, a vingança de Iago, profundo conhecedor da mente e dos sentimentos humanos, e mestre insuperável da arte da hipocrisia, concentra-se na construção exacerbada do ciúme de Otelo, maleficamente insinuando a infidelidade sexual de Desdémona e ardilosamente sugerindo a anormalidade, se não mesmo a aberração, da relação entre o afamado general e a donzela veneziana. Acicatado pelo discurso malevolamente insinuante de Iago (3.3.230-240), o próprio Otelo consciencializa dolorosamente aquilo que o poderá separar de Desdémona: idade, raça, cultura (3.3.265-268).
De forma menos ostensiva, mas igualmente bem presente na peça, separa-os a força do desejo. Embora Otelo chegue a dizer que só o amor por Desdémona o levou prescindir da sua “liberdade” principesca e da sua “descasada condição” (1.2.17-28), a verdade é que a sua paixão, ao contrário da de Desdémona, não se revela muito fogosa. Enquanto Desdémona anseia por usufruir o mais possível da presença física do seu amado, recusando a paz entediante de Veneza para o acompanhar na missão bélica a Chipre a fim de não adiar o prazer (1.3.248-259), Otelo não parece deixar-se impacientar pelos constantes entraves que vão ocorrendo à união entre os dois.
A peça deixa até no ar a suspeita de que o casamento não teria chegado a ser consumado. Perturbado pela torpe manipulação de Iago, Otelo expressa a sua perplexidade perante o casamento (3.3.246) e chega a falar da “maldição” que é estar de posse de uma mulher, mas não dos seus “apetites” (3.3.270-272). Ou é o conhecimento do arrebatamento erótico de Desdémona na intimidade, a revelar uma sexualidade insaciável, que perturba aqui a personagem, ou a angústia de nem sequer ter chegado a saber da virgindade da mulher.
Uma breve e sábia fala de Emília mostra que central à peça é a sexualidade das mulheres, a qual os homens ignoram e por isso os ameaça, mas de que avidamente eles se servem para logo a descartarem, uma vez o desejo satisfeito (3.4.107-110). O modo como a peça trata este tema mostra quão delicada é, na nossa cultura, no tempo de Shakespeare como no nosso próprio tempo, a relação entre o familiar e o social, o íntimo e o público, o pessoal e o político. Confundir esses níveis de existência ou radicalmente os separar pode ter consequências catastróficas, como Romeu e Julieta não puderam chegar a compreender.
O conceito de intimidade, como hoje o entendemos, é de invenção relativamente recente. Mesmo assim, hoje como então, não pode dizer-se que a sexualidade da mulher fosse alguma vez do foro íntimo. Está tudo na Bíblia, e o uxoricídio de Otelo demonstra-o perfeitamente. As últimas cenas da peça são a encenação mesma da justiça divina, que não pode senão ser masculina, sobre a suposta prevaricação da mulher. O adultério feminino não é só um crime contra a humanidade; é um pecado contra a ordem sagrada que solenemente organiza a sociedade à volta de dois sexos. O masculino é público e político, o outro, supostamente íntimo e privado.
Só que o íntimo-e-privado tem o poder de pôr em causa o público-e-político, o qual nesse caso se agiganta a defender-se. Pois não está, ainda hoje, a honra dos homens no sexo das mulheres? (Novas cartas portuguesas [2010], 251). Por isso, não devia surpreender-nos o acórdão assinado pelos magistrados portugueses Neto de Moura e Maria Luísa Arantes em 2017, opinando que “o adultério da mulher é um gravíssimo atentado à honra e dignidade do homem” e lembrando que a Bíblia pune com a morte as mulheres adúlteras, e que ainda hoje “sociedades existem em que a mulher adúltera é alvo de lapidação até à morte” (1).
Donde se conclui que a violência contra as mulheres não é nunca do foro íntimo. É antes um acto de violência política destinado a eliminar uma resistência tenaz, mas sempre ameaçada, à supremacia masculina. Não é de Desdémona que falo agora, mas de Emília, apunhalada pelo marido, cujos crimes acabara de denunciar. As restantes personagens vivas em cena, todas elas do sexo masculino, mostram-se horrorizadas pelo assassínio de Emília, mas a verdade é que esse gesto cruel de Iago serve os interesses delas: a mulher, que numa cena de intimidade feminina, revelara bem perceber o vulnerável ethos público masculino, teria mesmo de acabar silenciada para sempre.
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(1) Fonte: https://jumpshare.com/v/XmGPjJyBg6mJMdehLjp8.
Maria Irene Ramalho é professora catedrática jubilada da Secção de Estudos Anglo-Americanos do Departamento de Línguas, Literaturas e Culturas da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. É Investigadora do Centro de Estudos Sociais.